terça-feira, 29 de novembro de 2016

Fotografia: A Pirelli lançou hoje em Paris o calendário 2017 de Peter Lindbergh com um novo olhar.

Foi apresentado hoje, em Paris, o Calendário Pirelli 2017, criado por Peter Lindbergh, um dos mais talentosos fotógrafos do mundo. Com a edição de 2017 - que segue a anterior, assinada por Annie Leibovitz em 2016 -, o mestre alemão torna-se o único fotógrafo a ser chamado para realizar o calendário Pirelli pela terceira vez, após o de 1996, fotografado na Califórnia, no deserto de El Mirage, e o de 2002, realizado no estúdio da Paramount Pictures, em Los Angeles. Além disso, em 2014, Lindbergh, juntamente com Patrick Demarchelier, foi o criador das fotos comemorativas dos 50 anos de vida do Calendário, que nasceu em 1964, teve algumas pausas na sua publicação, e está, agora, na sua quadragésima quarta edição.

Quem explica o fio condutor do Calendário Pirelli 2017 é o próprio fotógrafo: “Numa época em que as mulheres são apresentadas pela mídia e por toda parte como embaixadoras da perfeição e da beleza, pensei que seria importante lembrar a todos que existe uma beleza diferente, mais real e autêntica, e não manipulada pela propaganda ou outra coisa qualquer. Uma beleza que fala da individualidade, da coragem de ser quem se é e da sensibilidade”. O título “Emocional”, escolhido por Lindbergh, enfatiza a intenção de suas fotos: “Criar um Calendário qu e não seja sobre corpos perfeitos, mas sobre a sensibilidade e a emoção, desnudando a alma das protagonistas, que ficam mais nuas do que o nu”. Abaixo, as fotografias, e em seguida uma conversa com o fotógrafo.




Para apresentar sua ideia de beleza natural e de feminilidade, Lindbergh fotografou 14 atrizes de fama internacional: Jessica Chastain, Penélope Cruz, Nicole Kidman, Rooney Mara, Helen Mirren, Julianne Moore, Lupita Nyong'o, Charlotte Rampling, Lea Seydoux, Uma Thurman, Alicia Vikander, Kate Winslet, Robin Wright e Zhang Ziyi. Com elas, coadjuvou também Anastasia Ignatova, professora de Teoria Política na State University de Moscou. Essas escolhas atestam, mais uma vez, o amor que Lindbergh sente pelo cinema, convertendo a ‘Cité du Cinéma’, de Saint Denis, um dos estúdios de produção cinematográfica mais importantes da Europa, na sede natural para o tradicional jantar de gala durante o qual o novo calendário é apresentado.

“O objetivo ─ diz Lindbergh ─ era retratar as mulheres de uma forma diferente: fiz isso chamando atrizes que tiveram um papel importante na minha vida e, ao fotografá-las, fui me aproximando delas o máximo possível. Como artista, sinto a responsabilidade de libertar as mulheres da ideia de juventude e de perfeição eternas. O ideal de beleza perfeita promovido pela sociedade é uma meta inatingível”.

As sessões fotográficas foram realizadas entre maio e junho deste ano, em cinco locações diferentes: Berlim, Los Angeles, Nova York, Londres e na praia francesa de Le Touquet. O resultado é um Calendário composto por 40 fotografias ─ incluindo retratos e ambientes ─ tiradas não só no estúdio mas também em vários espaços metropolitanos e cenários ao ar livre, como ruas, fast-foods e hotéis decadentes no centro da cidade de Los Angeles; no Times Square, em Nova York; no teatro Sophiensale, em Berlim; nos telhados dos estúdios em Nova York e em Londres; e na praia de Le Touquet.

Mas não é somente o cinema que caracteriza os trabalhos de Lindbergh. O fotógrafo é famoso também por sua capacidade de trazer para suas fotos elementos ligados ao ambiente industrial da sua infância. E é por isso que, com o objetivo inicial de transferir para o Calendário aspectos relacionados à tecnologia e à indústria, Lindbergh também realizou, durante a operação, inúmeras fotos no polo industrial da Pirelli, em Settimo Torinese, a fábrica tecnologicamente mais avançada do grupo. Da experiência, nasceu uma série de fotografias sobre o mundo da automação e da inovação tão sugestiva e potente que, como disse o próprio fotógrafo na entrevista publicada pela revista Pirelli World, “no final, decidimos dividir as experiências em duas séries de fotos e usar a série da fábrica para realizar, no futuro, um projeto autônomo e separado do Calendário” .

A preparação, as histórias e os protagonistas do Calendário Pirelli 2017 nos bastidores podem ser visualizados no site www.pirellicalendar.com, a plataforma renovada recentemente que permite visualizar a história de mais de 50 anos de The Cal™ por meio de filmes, entrevistas, fotografias e textos inéditos. Um dos conteúdos exclusivos da nova edição, a seção Making of The Cal™ narra o processo de concepção e de realização do trabalho artístico do grande fotógrafo e de sua equipe. Além disso, a seção Icons estará enriquecida com novas entrevistas exclusivas realizadas com as protagonistas do Calendário Pirelli 2017.

Para quem adora saber tudo em detalhes uma conversa com Peter Lindbergh: “EU, A FOTOGRAFIA E O CALENDÁRIO PIRELLI 2017”

Qual é a ideia que está por trás deste Calendário?
Eu quis usar o calendário 2017 para defender um tipo diferente de beleza. O sistema atual, baseado no consumo, oferece um único tipo de beleza, demasiadamente ligado à ideia de juventude e de perfeição. Mas essa ideia de beleza não tem relação com a realidade e com as mulheres. Por meio do Calendário Pirelli, desejei transmitir outra mensagem: a de que a beleza é muito mais do que nos oferece hoje a publicidade. O objetivo era retratar as mulheres de uma forma diferente. Fiz isso envolvendo atrizes que tiveram um papel importante na minha vida e, ao fotografá-las, fui me aproximando delas o máximo possível. Já nas primeiras fotos, percebi que funcionava. Acho incrível olhar para pessoas como Nicole Kidman, que foi a primeira que fotografei, de uma forma totalmente diferente. É uma experiência sensacional olhar para alguém que olha para você através da câmera e criar uma ligação direta, vivendo uma experiência única, como nunca tinha me acontecido antes. Depois de umas duas horas de sessão fotográfica, quando Nicole disse “Eu não sei por que estou me divertindo tanto... Ninguém jamais me fotografou assim... Ninguém jamais viu essa parte de mim e é magnífico”, ela sintetizou a essência do que eu desejava fazer com o Calendário Pirelli 2017: eu queria retratar as mulheres, mas não por meio da sua perfeição, e sim da sua sensibilidade e das suas emoções. Por isso, dei a esta edição do Calendário o título "Emocional”, valorizando não uma perfeição artificial, mas o mundo real e as emoções que estão por trás dos rostos dessas mulheres.

Por que preto e branco?
Em preto e branco, você atribui à cena uma realidade diferente à do mundo real e em cores: é você quem interpreta a realidade misturando o branco e o preto para obter sombras, luzes e formas. Eu acho que o preto e o branco simplificam e transformam a realidade em outra coisa, é o primeiro pequeno passo para se afastar do que é normal ou real, para ir ao encontro de algo mais interessante, que não é real.

A inovação tecnológica está influenciando o seu trabalho?
Não, porque eu me preservei. Os jovens fotógrafos de hoje não sabem nem mesmo o que significa usar uma máquina analógica. Conheço muito bem o mundo da película e eu não queria uma câmera digital. Eu estava totalmente feliz com o que tinha. Depois, com o tempo, eu aprendi que o digital é fantástico em muitos aspectos, com duas exceções. A primeira é que a imagem digital é muito límpida e perde em suavidade e emoção. Por isso, uso Photoshop, para reduzir o efeito digital. Em segundo lugar, o aspecto mais chato de trabalhar com uma câmera digital é que ela transforma a sessão de fotos em um esforço de colaboração. Toda vez que estou diante de uma cena e tiro uma foto, a imagem aparece projetada em uma tela na sala ao lado, com dez pessoas que observam, julgam e dão palpites... Essa maneira de fotografar destrói completamente a intimidade entre o fotógrafo e o que está sendo fotografado. O que me interessa é a relação com a cena, porque é dessa relação que nascem as belas fotos e o digital impede que esse tipo especial de relacionamento aconteça.

O Calendário 2017, como no 2002, revela o seu amor pelo cinema. Que relação existe entre a fotografia e o cinema?
Está ligada à ideia de ”tempo”, que é muito difícil visualizar em fotografia, mesmo sendo esta uma questão completamente temporal. Porque consegue parar o tempo. Perguntam-me sempre “Por que você não quer fazer filmes?”. E eu respondo que talvez queira, sim, mas não é a minha preocupação principal. Eu acredito que fotografia é tão interessante quanto cinema, porque, com “nada”, você pode tornar visível uma porção de coisas. Você vê alguém atravessando a rua: no cinema, não seria nada, enquanto na fotografia o tempo para em um determinado momento, um momento maravilhoso, estranho, muito profundo e emocionante, que nasce do nada, só porque o tempo parou. Penso ser essa uma característica peculiar da fotografia.

Para realizar o Calendário 2017, você também tirou fotos no polo industrial Pirelli de Settimo Torinese. O que o levou até a fábrica?
Tudo começou quando Marco Tronchetti Provera entrou em contato comigo. “Peter – disse ele – nós somos uma empresa high - tech e gostaria de fazer algo inovador”. A sua ideia era introduzir alguns aspectos tecnológicos no novo Calendário, e eu achei isso muito estimulante. Na verdade, para ser honesto, inicialmente respondi que a ideia não era viável. Mas depois, conversando, seus argumentos eram tão sofisticados e intelectualmente interessantes que eu me vi envolvido. Ele me falou sobre o significado das máquinas para ele e para a história da Pirelli e, a esse ponto, tive a ideia de fotografar no polo industrial Pirelli, com todas as suas implicações, mas realmente muito estimulante. No dia seguinte, parti com o objetivo de analisar o lugar e entender como eu me sentiria. Do ponto de vista da produção, percebi quase imediatamente que seria impossível levar as atrizes para a fábrica e fotografá-las lá. Propus, então, ir eu mesmo fotografar a fábrica, as máquinas, os robôs, tentando estabelecer uma ligação ‘emotiva’ com tudo, fazendo que aquilo parecesse vivo. Eu não tinha certeza de que conseguiria, mas o resultado foi muito gratificante e ainda é, a tal ponto que, no final, decidimos dividir a experiência em duas séries de fotos e usar a série da fábrica para realizar no futuro um projeto autônomo e separado do Calendário. 

Qual é a sua maior fonte de inspiração?
Não tenho áreas específicas que sejam fontes ocultas de criatividade. Tudo o que vejo me inspira, e, mais cedo ou mais tarde, utilizo isso para fazer alguma coisa. Evito ir a desfiles de moda. Prefiro usar o tempo das coleções de outra maneira. Costumo ver as roupas nos ateliês dos amigos, por exemplo, hoje passei o dia com o meu amigo Azzedine Alaïa, com o qual farei um projeto, e ele me mostrou a sua nova coleção, com peças incrivelmente belas. Alguns dias atrás, falando sobre fotografia de moda, alguém me disse que a tarefa da fotografia de moda era mostrar as coleções de roupas. Isso pode ser em parte verdadeiro. Mas eu digo que a fotografia de moda não deve mostrar apenas roupas e ajudar a indústria a vendê-las; deve, sim, ter a liberdade de mostrar a existência de um contexto muito mais amplo, mais amplo do que a própria moda.

Qual é o aspecto mais criativo para você?
Acho que a primeira pergunta é: Onde está a criatividade? E a segunda é: Como você pode aproveitá-la? E depois: Como você pode usá-la? São temas muito fascinantes, para os quais dediquei, no passado, muito tempo. Pensando bem, acho que a criatividade deriva da sua visão do mundo que, de alguma forma, renasce por meio de suas experiências. Muitas pessoas têm criatividade, mas não sabem como acessá-la. Pratico meditação transcendental há quarenta anos e isso me ajudou muito a compreender quem sou e a encontrar o meu caminho interior.  

CALENDÁRIO PIRELLI 2017
Créditos

Nicole Kidman Los Angeles
Alicia Vikander Berlin
Léa Seydoux Londres
Robin Wright New York
Lupita Nyong’o New York
Kate Winslet Londres
Rooney Mara New York
Jessica Chastain New York
Penelope Cruz New York
Zhang Ziyi Los Angeles
Julianne Moore New York
Uma Thurman New York
Helen Mirren Londres
Charlotte Rampling Londres
Anastasia Ignatova Le Touquet, França

--  
Fotógrafo: Peter Lindbergh
Diretor de Arte: Juan Gatti
Assistente de Peter Lindbergh: Stefan Rappo
Cabelo: Odile Gilbert, Vernon Francois (Lupita)
Maquiagem: Stephane Marais, Nick Barose (Lupita), Groomer Pablo (Penelope)
Estilista: Julia Von Boehm
Produtor: 2b Management
Casting: Piergiorgio Del Moro


PETER LINDBERGH Biografia: Conhecido por suas  memoráveis imagens cinematográficas, Peter Lindbergh é considerado um dos fotógrafos contemporâneos mais influentes. Nascido em Lissa (Alemanha), em 1944, ele passou a infância em Duisburgo (Renânia do Norte-Vestfália). Trabalhou como vitrinista para uma loja de departamento local e matriculou-se na Academia de Belas Artes de Berlim, no início de 1960. Ao recordar aqueles anos, Lindbergh diz: “Eu preferia buscar inspiração em Van Gogh, meu ídolo, ao invés de ter que pintar os retratos e as paisagens que ensinavam nas escolas de arte...” Inspirado pelo trabalho do pintor holandês, ele mudou-se para Arles por quase um ano e iniciou, então, uma viagem de carona pela Espanha e pelo norte da África. Mais tarde, estudou pintura na Faculdade de Artes de Krefeld.

Influenciado por Joseph Kosuth e pelo movimento Conceitual, antes de se formar, foi convidado para apresentar seu trabalho na famosa Galeria vanguardista Denise René-Hans Mayer, em 1969. Depois de se mudar para Dusseldorf, em 1971, voltou-se para a fotografia e trabalhou durante dois anos como assistente do fotógrafo alemão Hans Lux, antes de abrir o seu próprio estúdio, em 1973. Ficou conhecido em seu país natal e foi convidado a juntar-se à equipe da revista Stern, que incluía fotógrafos famosos como Helmut Newton, Guy Bourdin e Hans Feurer. Mudou-se então para Paris, em 1978, para continuar sua carreira.

Considerado um pioneiro em fotografia, Lindbergh introduziu uma nova forma de realismo, redefinindo os padrões de beleza com imagens atemporais. Sua abordagem humanista e idealização das mulheres o distingue de outros fotógrafos, já que ele privilegia a alma e a personalidade. Em tempos de excessivos retoques, ele mudou drasticamente os padrões da fotografia de moda, acreditando que há algo que torna uma pessoa interessante além da idade. Ele explica: “Esta deve ser a responsabilidade dos fotógrafos de hoje: libertar as mulheres e toda a gente da mania de juventude e perfeição”. Sua visão singular mostra a pessoa em seu estado puro, “com toda a honestidade”, evitando qualquer estereótipo ao clicar um rosto com quase nenhuma maquiagem, sem disfarce, melhorando a autenticidade e a beleza natural das mulheres que ele fotografa. Lindbergh ofereceu uma nova interpretação das mulheres pós-1980, sem prestar muita atenção ao vestuário, acreditando que, como referiu: “Se você tirar a moda e o artifício, pode ver a pessoa real”.

A jornalista britânica Suzy Menkes ressalta que “recusar-se a se curvar à perfeição é a marca registrada de Peter Lindbergh - suas imagens olham para a alma nua e crua de cada pessoa, por mais familiar ou famosa que seja”. Na moda, Lindbergh foi o primeiro fotógrafo a incluir uma narrativa em suas séries, e sua narração introduziu uma nova visão da fotografia de arte e de moda. Ao longo dos anos, criou imagens que marcaram a história da fotografia, caracterizadas por uma abordagem minimalista aplicada à fotografia pós-modernista. Em 1988, conquistou fama internacional e lançou as carreiras de uma nova geração de modelos que ele descobrira recentemente, mostrando todas vestidas com camisas brancas. Um ano mais tarde, ele fotografou Linda Evangelista, Naomi Campbell, Cindy Crawford, Christy Turlington e Tatjana Patitz, modelos ainda jovens na época, todas juntas pela primeira vez, para a lendária capa da Vogue UK de janeiro de 1990.

O cantor pop George Michael, que lançou o “movimento das Supermodelos”, seguido mais tarde por Gianni Versace, depois de ver a capa da Vogue, inspirou-se nas fotos de Lindbergh para criar o icônico vídeo da sua canção “Freedom '90”, marcando o início da era das modelos celebridade, que redefiniu a imagem da mulher moderna.

Famoso por suas séries narrativas de moda, o trabalho de Lindbergh é mais conhecido por seus retratos simples e reveladores, naturezas mortas e imagens que revelam uma forte influência do cinema alemão e do ambiente industrial de sua infância, dança e cabarés, além de paisagens e espaços exteriores.

A partir do final da década de 1970, Lindbergh passou a trabalhar com as mais famosas grifes e revistas, incluindo as edições internacionais de Vogue, The New Yorker, Rolling Stone, Vanity Fair, Harper's Bazaar US, Revista Wall Street Journal, The Face, Visionaire, Interview e W.

Seu trabalho faz parte de coleções permanentes de muitos museus de belas artes em todo o mundo e tem sido exibido também em museus e galerias de prestígio. Dentre eles, o Victoria & Albert Museum (Londres), o Centre Pompidou (Paris), e individuais no Hamburgerbanhof (Berlim), no Bunkamura Museum of Art (Tóquio) e no Pushkin Museum of Fine Arts (Moscou), além da recente exposição “A Different History of Fashion”, no Kunsthal de Roterdã, projetado por Rem Koolhaas (Setembro 2016).

Lindbergh dirigiu uma série de filmes e documentários que foram aclamados pela crítica: Models, The Film (1991); Inner Voices (1999) que ganhou o prêmio de Melhor Documentário no Toronto International Film Festival (TIFF), em 2000; Pina Bausch, Der Fensterputzer (2001) e Everywhere at Once (2007), narrado por Jeanne Moreau e apresentado nos festivais de Cannes e Tribeca. Lindbergh é representado pela Gagosian Gallery e pela 2b Management. Atualmente vive entre Paris, Arles e Nova York. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada pelo comentário. Bjs.